A construção civil em Minas Gerais iniciou 2026 em ritmo mais fraco que o observado no país. Segundo o Boletim da Construção, elaborado pela Gerência de Economia da FIEMG, o PIB do setor no estado caiu 3,7% no primeiro trimestre do ano, enquanto o Brasil registrou crescimento de 1,3% no mesmo período.
Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, a diferença também é significativa. A construção mineira recuou 0,2%, ao passo que a atividade nacional avançou 2,9%. O resultado reforça a continuidade do processo de desaceleração iniciado em 2025, quando o setor já havia acumulado queda de 2,3% em Minas Gerais, em contraste com alta de 0,5% no Brasil.
O desempenho preocupa não apenas pelo impacto econômico, mas também pelos reflexos sociais. A construção civil tem papel relevante na geração de empregos, na movimentação da cadeia produtiva e na oferta de moradias. Em Minas Gerais, o mercado de trabalho do setor seguiu enfraquecido no primeiro trimestre de 2026. A população ocupada na construção caiu 2,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. No Brasil, houve crescimento de 0,4%.
Para o economista-chefe da FIEMG, João Gabriel Pio, os dados mostram que a construção mineira enfrenta um ajuste mais intenso que o observado nacionalmente. “Os resultados do primeiro trimestre reforçam que a construção civil em Minas Gerais atravessa um período de perda de dinamismo mais intenso do que o observado no restante do país. A combinação de crédito ainda caro, elevado custo de financiamento e baixo nível de confiança continua restringindo os investimentos privados e dificultando uma retomada consistente da atividade”, afirma.
Apesar do cenário adverso, alguns indicadores mostram movimentos pontuais de recuperação. Em março de 2026, as vendas de materiais de construção em Minas Gerais cresceram 8,7% frente ao mesmo mês de 2025, acima do resultado nacional, de 8,1%. No entanto, o acumulado do ano ainda ficou negativo no estado, com queda de 1,9%, o que indica que a melhora mensal ainda não foi suficiente para reverter o quadro geral de enfraquecimento.
Outro ponto de atenção é o custo da construção. Em março, o INCC-DI acumulou alta de 5,84% em 12 meses, abaixo dos níveis observados em 2025. A desaceleração foi influenciada pela menor pressão dos preços de materiais e serviços, que subiram 3,75%. Já a mão de obra continuou pesando mais sobre o setor, com alta acumulada de 8,82%, em um contexto marcado pela dificuldade de contratação de trabalhadores qualificados.
O boletim também aponta que as condições de crédito permanecem restritivas. Embora as concessões de financiamento imobiliário tenham alcançado R$ 21,8 bilhões em abril de 2026, maior valor para o mês na série analisada, o custo do financiamento segue elevado para famílias e empresas. As operações com taxas reguladas tiveram papel decisivo nesse resultado, somando R$ 18,5 bilhões e representando 84,8% das concessões no período.
Na avaliação da FIEMG, o crédito regulado tem ajudado a sustentar o mercado habitacional, mas ainda não é suficiente para garantir uma retomada robusta da construção civil. O elevado custo do financiamento, as incertezas econômicas e a menor disposição para investir seguem limitando novos empreendimentos e a expansão da demanda privada.
As perspectivas para 2026 permanecem desafiadoras. Programas habitacionais e investimentos públicos devem contribuir para evitar uma retração mais intensa, mas a expectativa é de que a construção civil mineira encerre o ano próxima da estabilidade, com crescimento insuficiente para recuperar as perdas acumuladas.
Ana Paula Motta
Imprensa FIEMG