Do tradicional sorvete servido na praça aos produtos premium, versões sem adição de açúcar e opções com novas funcionalidades, o mercado de gelados comestíveis acompanha as transformações no comportamento dos consumidores e na própria indústria. No Dia do Sorvete, celebrado em 23 de setembro, números do setor mostram a importância dessa atividade para a economia de Minas Gerais e do Brasil.
De acordo com o Boletim da Indústria de Laticínios, Brasil e Minas Gerais, elaborado pela gerência de Economia da FIEMG com dados do primeiro trimestre de 2026, sorvetes e preparações para sorvetes foram o principal produto exportado pela indústria brasileira de laticínios no período. Dados do Comex Stat mostram que as vendas externas chegaram a US$ 14 milhões.
Segundo a coordenadora da Gerência de Economia da FIEMG, Juliana Gagliardi, no primeiro semestre de 2026, os sorvetes se destacaram como o principal produto lácteo exportado pelo Brasil, respondendo por 37,0% das vendas externas da indústria de laticínios. “Esse é um dos poucos segmentos da cadeia em que o país apresenta superávit comercial: o valor exportado foi mais de quatro vezes superior ao das importações, o que sinaliza a competitividade da indústria nacional nesse mercado. Em Minas Gerais, o desempenho também foi positivo, com saldo superavitário na balança comercial”, destaca.
Em Minas Gerais, dados estruturais da indústria, com base na RAIS/MTE de 2025, apontam a existência de 484 empresas dedicadas à fabricação de sorvetes. Juntas, elas são responsáveis por 3.243 empregos formais e por uma massa salarial anual de R$85,6 milhões.

O desempenho do mercado de trabalho mineiro também se destacou no início deste ano. Segundo dados do CAGED/MTE referentes ao primeiro trimestre de 2026, o segmento registrou saldo positivo de 51 novos empregos formais no estado. No Brasil, no mesmo período, houve retração de 181 postos de trabalho.
Para o presidente do Sindicato da Indústria de Sorvetes do Estado de Minas Gerais (Sindisorvete MG), Wander Bertolace de Carvalho, a atividade está fortemente inserida na economia e no cotidiano dos municípios mineiros. Segundo ele, o setor está presente nos 853 municípios do estado e é formado principalmente por pequenos negócios.
“Em Minas Gerais, 97% do setor de sorvetes é composto por micro e pequenas empresas, sendo a maioria delas empresas familiares. São negócios antigos. Você encontra empresas com 30, 40, 50 e até 70 anos”, afirma.
Além da importância econômica, Wander destaca a relação afetiva criada entre o produto e os consumidores. “É um setor que emprega muito e que deixa marca na memória. O sorvete está ligado a momentos felizes, de alegria, com a família, o marido, o namorado ou os filhos. São momentos que ficam gravados”, diz. Para celebrar a data, o presidente do Sindisorvete MG reforça: “Viva o sol, viva o sorvete”.
Consumidor busca sabor e experiência – Uma pesquisa da Abrasorvete em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra que o produto faz parte da rotina de uma parcela significativa dos consumidores. Entre os entrevistados, 56,2% afirmaram consumir sorvete pelo menos uma vez por semana. Confira aqui.
A experiência também tem peso importante na escolha. Para 76,2% dos participantes, ir à sorveteria é uma preferência justamente pela experiência proporcionada pelo estabelecimento. Quando precisam escolher entre dois sorvetes, 62,6% apontam o sabor como fator decisivo, enquanto o preço aparece como principal critério para 15,6%.
A percepção de qualidade também está associada às características sensoriais do produto. Segundo o levantamento, 64,8% relacionam qualidade à cremosidade e 61,4% ao sabor intenso. Produtos diferenciados também encontram espaço: 57,2% dos entrevistados disseram ter experimentado ou comprado sorvetes premium ou gourmet nos últimos seis meses.
Ao mesmo tempo, mudanças nos hábitos alimentares começam a influenciar a categoria. A pesquisa mostra que 52,8% dos consumidores reduziram o consumo de açúcar no último ano e 40% aumentaram a ingestão de proteínas. Quando perguntados sobre sorvetes funcionais, 87,1% afirmaram que experimentariam uma versão desse tipo ou que poderiam passar a consumir no lugar do produto atual.
Entre as pessoas que usam ou já utilizaram medicamentos para emagrecimento, 54,1% disseram ter passado a consumir porções menores e 33,4% passaram a preferir versões consideradas mais saudáveis.

Inovação amplia possibilidades – As mudanças também são percebidas dentro das empresas. Diretor da Easyice, Francisco Melo acompanha a evolução do setor desde que a empresa surgiu, em 1996, como uma sorveteria na Savassi, em Belo Horizonte. Ao longo dos anos 2010, o negócio iniciou a migração para a indústria, com o desenvolvimento da marca Easyice e a produção de marcas próprias. Atualmente, atende Minas Gerais, São Paulo, Distrito Federal e Espírito Santo com um mix de sorvetes e gelados comestíveis.
“O mercado de sorvetes se desenvolveu muito nos últimos anos em todas as camadas. Os fornecedores vêm trazendo uma gama enorme de inovações em sabores e texturas. As empresas de freezers e maquinários também investiram muito para disponibilizar equipamentos mais econômicos e que entregam mais produtividade”, afirma.
O empresário também destaca o papel das entidades representativas na aproximação entre os diferentes agentes da cadeia. Segundo ele, iniciativas do Sindisorvete MG, como a Sorveminas, a Sorvetec, seminários e painéis de discussão, contribuíram para preparar sorveterias, açaiterias e indústrias para um ambiente mais competitivo e para um consumidor interessado em maior variedade de sabores, apresentações, funcionalidades e preços.
Na Easyice, a inovação tem sido utilizada como estratégia de crescimento. “Nos últimos anos lançamos novos sabores, novos formatos, sorvetes com novas funcionalidades e também novos produtos utilizando nossa cadeia de congelados”, conta Melo. Entre as novidades que conquistaram espaço, ele cita os sorvetes e açaís sem adição de açúcar e as frutas cobertas com chocolate.
O interesse por produtos diferenciados também aparece nas embalagens e na composição. “Temos observado um crescente interesse nos sabores zero açúcar e também nos potes premium de papel”, diz. Segundo Melo, os clientes também procuram características artesanais, ingredientes naturais e sabores regionais. Para definir a combinação entre produção em escala e características artesanais, a empresa criou o conceito de “arterial”, junção das palavras artesanal e industrial.

Sazonalidade e mão de obra desafiam empresas – Apesar das oportunidades, o segmento enfrenta desafios. Para Melo, dois dos principais são a carga tributária, que afeta o preço final dos produtos e o fluxo de caixa das empresas, e a dificuldade para contratar e reter trabalhadores. “Contratação e retenção de mão de obra são desafios em todos os níveis. Absenteísmo e turnover estão em patamares muito elevados”, afirma.
A sazonalidade exige ainda um planejamento constante. De acordo com o empresário, os volumes podem cair até 70% nos meses de maio, junho e julho. O período de menor demanda é utilizado para organizar férias das equipes e cronogramas de manutenção, sem interromper completamente a produção, já que as empresas precisam começar a formar estoques para a chegada do verão.
Tecnologia e automação também vêm ganhando espaço nesse processo. O empresário afirma que a Easyice avança na automatização de linhas de envase e utiliza inteligência artificial em atividades administrativas para otimizar processos e tarefas de menor valor agregado.
Mesmo diante das transformações e dos desafios do negócio, o empresário resume o que considera um dos principais atrativos do segmento. “É preciso se preparar para a baixa temporada, para trabalhar muito e para entender de produção, manutenção, logística e comercial. Mas também é preciso se preparar para trabalhar com algo incrível. Desconheço um produto que seja amado por todos como o sorvete.”
Denise Lucas
Imprensa FIEMG