A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) avalia que o Novo Desenrola Brasil, anunciado pelo Governo Federal, pode impactar positivamente a atividade econômica no curto prazo, mas gera preocupações, especialmente no que se refere aos efeitos estruturais sobre o mercado de crédito e o ambiente econômico. Embora a entidade reconheça que a medida é importante para a redução da inadimplência e a recuperação da capacidade financeira das famílias, sobretudo em um contexto ainda marcado por restrições de crédito e elevado custo do capital.
“O endividamento no Brasil tem caráter estrutural e tende a persistir sem avanços consistentes em renda e na redução do custo do crédito. Ao estimular a demanda em um ambiente ainda pressionado, o programa também pode reduzir a potência da política monetária e limitar o espaço para queda adicional dos juros. Este fator aliado à ausência de um componente mais robusto de educação financeira, eleva o risco de recorrência do endividamento e gera incentivos distorcidos na economia, ao acabar privilegiando os maus pagadores”, afirma o economista-chefe da FIEMG, João Gabriel Pio.
A FIEMG recorda que, embora o Desenrola Brasil em 2023 tenha produzido efeitos positivos imediatos sobre a redução da inadimplência e a regularização de registros negativos, os dados mais recentes indicam que tais impactos não se mostraram plenamente sustentáveis ao longo do tempo. A inadimplência da carteira de crédito voltou a apresentar trajetória de alta ao longo de 2025, com destaque para o segmento de pessoas físicas, cuja taxa atingiu 5,42% em fevereiro de 2026, patamar significativamente superior ao observado no período de lançamento do programa anterior.
Esse movimento evidencia uma retomada do endividamento e sugere que medidas centradas exclusivamente na renegociação de dívidas tendem a produzir efeitos predominantemente de curto prazo, sem alterar de forma estrutural a dinâmica de crédito das famílias.
A ampliação do uso de garantias públicas por meio do Fundo Garantidor de Operações (FGO), bem como a mobilização de recursos adicionais, eleva o risco de geração de passivos contingentes, com potenciais impactos sobre a sustentabilidade fiscal no médio prazo. Ainda que tais efeitos não sejam imediatos, sua magnitude exige acompanhamento rigoroso.
Além disso, a imposição de limites de juros e a indução de renegociações com elevados descontos podem comprometer a adequada precificação de risco pelas instituições financeiras. Esse tipo de intervenção tende a gerar distorções na alocação de crédito, afetando a eficiência do sistema e podendo resultar em restrições futuras à oferta de financiamento. Outro ponto de atenção diz respeito aos incentivos econômicos gerados. A recorrência de programas de renegociação pode enfraquecer a cultura de pagamento e estimular comportamentos que geram impactos negativos sobre a disciplina financeira no longo prazo.
Em março de 2026, o volume total de dívidas em atraso alcançou cerca de R$ 557 bilhões, distribuídos em aproximadamente 338 milhões de registros de dívidas, envolvendo cerca de 83 milhões de inadimplentes no Brasil, segundo o Serasa.
Imprensa FIEMG