A onda de calor que atinge Minas Gerais movimenta diferentes setores da economia. Enquanto bebidas refrescantes, sorvetes e climatização registram aumento da demanda, o calor pressiona o consumo de energia e traz desafios para segmentos como alimentos e café. Os efeitos também chegam à logística, com a necessidade de responder rapidamente às mudanças no comportamento do consumidor.
O cenário ocorre enquanto 190 municípios mineiros estão sob alerta vermelho do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), classificação de grande perigo. Em Belo Horizonte, a maior temperatura de 2026 foi registrada no último domingo (27/9), quando os termômetros chegaram a 35,6°C, segundo a Defesa Civil municipal, que aponta a possibilidade de um novo recorde ainda nesta semana.
Mais calor, mais consumo de energia – Nas residências, um dos principais impactos está no maior uso do ar-condicionado. Segundo o coordenador de Energia da FIEMG, Sérgio Pataca, embora outros aparelhos possam ter potência superior, a climatização pesa pelo tempo de funcionamento.
“O chuveiro pode ter uma potência maior, mas fica ligado por poucos minutos. Já o ar-condicionado pode funcionar por oito horas ou até durante toda a noite. Em períodos de muito calor, esse uso pode aumentar o consumo residencial entre 30% e 40% e, dependendo da intensidade, chegar a dobrá-lo”, explica Pataca.
O reflexo também pode aparecer diretamente no orçamento das famílias. “Se considerarmos uma referência de R$1 por hora, um ar-condicionado ligado durante oito horas por noite pode representar cerca de R$240 a mais no mês. É uma estimativa, porque o valor depende muito do equipamento, da eficiência e do tempo de funcionamento”, ressalta.
No comércio e na indústria, o impacto varia conforme a atividade e a necessidade de climatização ou refrigeração. Empresas de alimentos e do setor farmacêutico, por exemplo, podem precisar manter sistemas de controle de temperatura funcionando por períodos prolongados.
A maior utilização dos equipamentos também aquece o mercado de serviços. Segundo Caio Alexandre Evangelista, instrutor de Formação Profissional de Refrigeração e Climatização do SENAI Américo René Giannetti, na Lagoinha, o período de altas temperaturas amplia significativamente a procura por profissionais especializados.
“Nesse período, há um aumento médio de 150% nas solicitações de manutenção e instalação de condicionadores de ar. O mercado para profissionais técnicos em refrigeração e climatização sempre foi muito bom e, neste momento, está em forte expansão, com uma demanda altíssima”, afirma Evangelista.
O crescimento da utilização, porém, exige atenção à eficiência. Segundo o instrutor, reduzir excessivamente a temperatura do aparelho não faz com que o ambiente seja climatizado mais rapidamente e pode aumentar o esforço do equipamento. “O ideal é ajustar o termostato para 24°C, garantindo conforto térmico. Assim, minimizamos o consumo de energia elétrica e aumentamos a vida útil dos condicionadores de ar”, orienta Evangelista.
A instalação e a manutenção feitas por profissionais qualificados também são importantes para o desempenho dos sistemas. O SENAI Américo René Giannetti oferece formação na área de Refrigeração e Climatização para atender à demanda do mercado.
Bebidas geladas e sorvetes avançam, enquanto café exige atenção – Na indústria de alimentos e bebidas, o calor produz efeitos distintos. Para o presidente da Câmara da Indústria de Alimentos e Bebidas da FIEMG, Vinícius Dantas, bebidas, sucos, cervejas, sorvetes e gelatos estão entre os produtos favorecidos pelas temperaturas elevadas. “São oportunidades para a indústria de alimentos, principalmente a indústria de bebidas, sucos e a indústria de sorvete”, afirma Dantas.
A mudança rápida no consumo, no entanto, exige resposta além das linhas de produção. Segundo Dantas, a indústria avançou em mecanização, tecnologia e embalagens, mas precisa acompanhar os picos de demanda com capacidade de distribuição. Em períodos de calor intenso, colocar o produto próximo ao consumidor e preservar sua qualidade e segurança ao longo do transporte tornam a logística parte central da estratégia.
O setor de sorvetes também já sente o avanço das temperaturas. Segundo o presidente do Sindsorvete-MG, Wander Bertolace, a diversificação de produtos, sabores e modelos de negócio reduziu a sazonalidade do mercado, embora o verão continue concentrando o pico das vendas. As indústrias aproveitam os meses mais frios para manutenção, investimentos e treinamento das equipes, preparando a capacidade produtiva para o período de maior procura.
“De julho para agosto, já tivemos um aumento de mais de 30% e, de agosto para setembro, os números devem ficar entre 30% e 40%. Se as temperaturas continuarem como estão e não houver chuvas intensas, no pico do verão o consumo pode ficar entre 70% e 75% acima dos meses de maio, junho, julho e agosto”, afirma Bertolace.
No setor de bebidas, o superintendente do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (SindBebidas-MG), Cristiano Lamego, aponta uma relação direta entre temperatura e vendas, com base em levantamento da Scanntech.
“A cada 1°C de aumento na temperatura média, o volume de vendas das bebidas mais sensíveis ao calor cresce, em média, 4,1%. Em episódios de calor atípico, com temperaturas entre 3°C e 5°C acima da média, as projeções e os registros do setor em Minas Gerais indicam crescimento de 12% a 20% no volume de vendas em comparação aos períodos de temperatura normal”, destaca Lamego.
Águas, isotônicos, energéticos, refrigerantes e cervejas estão entre as categorias mais beneficiadas. No caso da cerveja, a sensibilidade ao calor é ainda mais evidente. “Nas ondas de calor, a cerveja se destaca não apenas pelo crescimento em volume, mas também pela contribuição financeira para o faturamento do setor. Cada 1°C adicional pode representar aproximadamente 5% de aumento nas vendas da categoria”, afirma Lamego.
O calor, porém, não beneficia todas as categorias de bebidas. Segundo Cristiano Lamego, produtos mais associados a temperaturas amenas ou frias tendem a perder espaço no carrinho durante os dias mais quentes. “Os vinhos podem apresentar retração próxima de 10%, enquanto bebidas destiladas tendem também a registrar queda no consumo durante períodos de calor intenso”, afirma o superintendente do SindBebidas-MG.
Se algumas categorias ganham impulso, outras exigem atenção. Chocolates, bebidas achocolatadas, café, pão e vinho são alguns dos produtos que podem ser prejudicados pelas altas temperaturas. No café, o impacto começa ainda na produção da matéria-prima.
Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Café de Minas Gerais (Sindicafé-MG), Sérgio Meirelles, o calor intenso aumenta a perda de água pelas folhas dos cafeeiros e pode comprometer a floração. O momento exige atenção porque o período mais indicado para o plantio ocorre entre outubro e dezembro, acompanhando a estação chuvosa.
Depois da colheita, o controle das condições de armazenamento também é fundamental para preservar a qualidade dos grãos. “Normalmente o cafeicultor vai beneficiando e transfere os cafés para armazéns e cooperativas e, como é um produto de alto valor agregado, não é recomendado mantê-lo nas propriedades”, explica Meirelles.
Os diferentes impactos mostram que o calor altera mais do que os hábitos de consumo. Para a indústria mineira, temperaturas extremas influenciam os custos de energia, demanda, conservação, matéria-prima e logística, exigindo respostas diferentes de acordo com cada atividade.
Imprensa FIEMG