Empresários, executivos, lideranças e formadores de opinião de diferentes regiões do país se reuniram, nessa quinta-feira (20/8), na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), em Belo Horizonte, para a abertura do 13º Congresso UNIAPAC ADCE Brasil. Durante três dias, palestras e painéis vão promover debates e reflexões sobre uma liderança fundamentada na ética, nos valores e no propósito, tendo como eixo a contribuição das empresas para o desenvolvimento humano e a transformação da sociedade.
Na abertura, o presidente da UNIAPAC ADCE Brasil – Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa do Brasil, Sérgio Cavalieri, ressaltou a parceria histórica da entidade com a FIEMG, especialmente na disseminação de valores cristãos no ambiente empresarial. Ele lembrou que a ADCE atua há 65 anos no Brasil e há 60 anos em Minas Gerais, com o propósito de inspirar e capacitar líderes a integrarem fé, ética e valores cristãos à gestão dos negócios.
Ao abordar o cenário contemporâneo, Cavalieri chamou atenção para as transformações provocadas pela tecnologia, pelas mudanças nos modelos de negócios e pelas novas configurações das relações de trabalho. Para ele, no entanto, alguns fundamentos devem permanecer inegociáveis.
“A tecnologia avança, os modelos de negócio mudam e as relações de trabalho se reconfiguram. Mas, em meio a tantas mudanças, a ética não pode ser relativizada e a dignidade humana jamais pode ser menosprezada”, afirmou.
O presidente também defendeu a compreensão da empresa como uma comunidade formada por pessoas que trabalham, investem, sustentam suas famílias e encontram no trabalho oportunidades para construir seus projetos de vida.
“É legítimo e necessário que as empresas tenham lucro”, pontuou. Segundo Cavalieri, o resultado financeiro deve ser entendido como consequência de um trabalho realizado com planejamento, técnica, qualidade e cumprimento das obrigações trabalhistas, fiscais e ambientais.

A presidente em exercício da FIEMG e presidente do Sindicato da Indústria do Material Plástico do Estado de Minas Gerais (Simplast-MG), Ivana Serpa Braga, destacou a coragem necessária para empreender no Brasil e relacionou esse movimento à fé, aos valores e à responsabilidade das lideranças empresariais.
“Essa coragem de empreender no Brasil, de transformar e agregar algo, é também o que Deus pede de nós: coragem, fé e valores”, afirmou.
Ivana ressaltou ainda que nenhuma empresa existe sem as pessoas que fazem parte dela e que os princípios discutidos durante o congresso se materializam na maneira como as lideranças conduzem suas equipes e suas relações.
“O propósito deste congresso é justamente falar sobre ética e valores. E tudo isso se reflete na atuação das nossas lideranças sobre o conjunto de pessoas que estão ao nosso redor”, destacou.
Na sequência, o presidente da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa de Minas Gerais (ADCE Minas), Alexandre Figueiredo, destacou que a busca por empresas melhores deve estar associada à construção de uma sociedade melhor.
Ele observou que as organizações vivem um momento marcado por mercados mais exigentes, novas tecnologias e crescente pressão por resultados. Ainda assim, reforçou que princípios como integridade, respeito à dignidade humana e responsabilidade das lideranças não podem mudar.
“As empresas não são construídas apenas com capital. Elas são construídas com confiança. Não crescem apenas com estratégia, mas com credibilidade. E não se tornam verdadeiramente grandes apenas pelos resultados que alcançam, mas pela forma como alcançam esses resultados”, ressaltou.
Figueiredo também relacionou essa reflexão ao tema central desta edição do congresso, “Empresas, valores e propósito: liderança ética para transformar o Brasil”, destacando a responsabilidade dos dirigentes empresariais diante das decisões que impactam trabalhadores, organizações e comunidades.
A presidente da UNIAPAC – União de Dirigentes Cristãos de Empresa da América Latina, Silvia Bulla, agradeceu à ADCE pelo convite e ressaltou a relevância de encontros que estimulem a reflexão sobre os valores capazes de orientar lideranças comprometidas com a transformação da sociedade.
Também participou da abertura o reitor da PUC Minas, padre Luís Henrique Eloy e Silva, que provocou os participantes a refletirem sobre os objetivos que orientam o exercício da liderança.
“A questão que eu me pergunto é se nós sabemos aonde queremos chegar. Porque, se lideramos, isso significa que conduzimos outros para onde estamos indo”, afirmou. O reitor convidou empresários e dirigentes a pensarem sobre o destino que pretendem dar às organizações diante dos desafios e das oportunidades que surgem no mundo do trabalho e sobre como valores, propósito e ética orientam esse caminho.
Empresas como agentes de transformação
A programação de abertura foi encerrada com a participação do cofundador da Natura e da Dengo, Guilherme Leal, que compartilhou experiências de sua trajetória empresarial e refletiu sobre o papel das organizações na construção de relações mais humanas e de uma sociedade sustentável.
Ao relembrar a história da Natura, fundada em 1969, Leal destacou que a empresa nasceu de forma simples, movida pela paixão pelos cosméticos como instrumento de transformação e pela valorização das relações humanas. Segundo ele, a necessidade de ouvir e estabelecer conexões genuínas com as pessoas tornou-se um dos fundamentos para o desenvolvimento da organização.

Com a expansão do negócio a partir da década de 1980, a empresa passou a envolver uma rede cada vez maior de fornecedores, consultores e consumidores. Na avaliação de Leal, a força do empreendedorismo está justamente na capacidade de construir, transformar e gerar benefícios compartilhados.
O empresário também relembrou o período de transição entre as décadas de 1980 e 1990 e o impacto das discussões ambientais que ganharam força mundialmente, especialmente a partir da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92. Esse contexto, segundo ele, ampliou a reflexão da Natura sobre o impacto dos negócios para as futuras gerações e contribuiu para o redesenho do propósito da companhia.
Leal defendeu a visão da empresa como um organismo vivo, cuja longevidade e geração de valor estão relacionadas à sua capacidade de contribuir para a sociedade. Para ele, transformar propósito em prática exige coerência nas relações construídas diariamente com colaboradores, fornecedores, consumidores, imprensa e demais públicos.
Ao falar especificamente sobre ética, ressaltou que ela não deve estar restrita a discursos ou documentos institucionais, mas precisa aparecer nas decisões cotidianas e, sobretudo, no comportamento das lideranças. “Ética é prática cotidiana”, sintetizou.
O executivo também compartilhou aprendizados relacionados à criação da Dengo, destacando a busca por um modelo de negócio atento às oportunidades de geração de valor e, ao mesmo tempo, aos desafios socioambientais da cadeia produtiva do cacau.
Ao longo dos próximos dois dias, o 13º Congresso UNIAPAC ADCE Brasil dará continuidade às discussões sobre ética, propósito, relações humanas e responsabilidade empresarial, aproximando lideranças e experiências que buscam conciliar resultados econômicos, desenvolvimento humano e impacto positivo na sociedade.
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Rafael Passos
Imprensa FIEMG