A possível intensificação do El Niño tem colocado setores estratégicos da economia em alerta diante dos impactos que o fenômeno climático pode provocar sobre o regime de chuvas, a geração de energia e os custos operacionais no país. Em Minas Gerais, representantes do setor energético e da cadeia cafeeira acompanham os reflexos sobre a produção industrial, os reservatórios hidrelétricos e a competitividade do setor produtivo.
O consultor de mercado de energia da FIEMG, Sergio Pacata, explica que os efeitos do fenômeno ainda dependem da intensidade e do comportamento climático nos próximos meses. Historicamente, o El Niño altera a distribuição das chuvas no Brasil, reduzindo as precipitações nas regiões Norte e Nordeste e aumentando o volume de chuvas no Sul do país. Segundo ele, além dos impactos sobre os reservatórios hidrelétricos, o fenômeno também pode elevar as temperaturas no Sudeste e Centro-Oeste, ampliando o consumo de energia justamente na região de maior demanda elétrica do país.
O especialista destaca que o sistema elétrico brasileiro já opera com acionamento de termelétricas, cenário que tende a elevar os custos da energia para consumidores e indústrias. De acordo com Pacata, os setores mais afetados são os eletrointensivos, nos quais a energia representa parcela significativa do custo de produção. Ele observa ainda que os reflexos acabam atingindo toda a cadeia produtiva e chegam ao consumidor final.
“Hoje, o sistema já opera com acionamento de termelétricas, o que encarece a energia no mercado livre e também no mercado regulado, por meio das bandeiras tarifárias . Isso afeta diretamente os setores eletrointensivos, mas os impactos acabam chegando a toda a cadeia produtiva. A energia mais cara não afeta apenas a conta de luz. Ela impacta diretamente o preço final dos produtos”, afirmou Pacata.
Segundo o consultor, apesar do avanço da diversificação da matriz energética brasileira nos últimos anos, com o crescimento das fontes solar, eólica e biomassa, as hidrelétricas continuam exercendo papel estratégico para garantir estabilidade ao sistema elétrico nacional e auxiliar na gestão de eventos extremos.
“O Brasil depende menos exclusivamente do regime hídrico do que no passado, mas as hidrelétricas continuam fundamentais para garantir segurança energética e auxiliar na gestão de eventos extremos. A diversificação da matriz é importante, mas o sistema ainda precisa de fontes renováveis capazes de oferecer estabilidade e capacidade de armazenamento”, ressaltou Pacata.
Os impactos do fenômeno climático também preocupam a cadeia cafeeira mineira. Segundo Sérgio Meirelles, presidente do Sindicato das Indústrias de Café do Estado de Minas Gerais (Sindicafé-MG), mudanças no comportamento das chuvas e o aumento das temperaturas podem afetar diretamente a produtividade, a qualidade da safra e os custos operacionais do setor, especialmente em regiões mais sensíveis ao estresse hídrico.
Meirelles explica que a irregularidade climática pode comprometer etapas importantes do desenvolvimento da lavoura, reduzindo a produtividade e afetando a qualidade da bebida. Além disso, o setor acompanha os impactos do aumento do custo da energia elétrica, especialmente em operações ligadas à irrigação, secagem, beneficiamento e armazenagem, atividades fundamentais para a cadeia industrial do café.
“A intensificação do El Niño tende a elevar o risco climático para o café mineiro, principalmente por provocar temperaturas acima da média e chuvas mais irregulares. Isso pode gerar estresse hídrico, abortamento floral e menor enchimento dos grãos. A falta de chuva durante a florada reduz a produtividade, enquanto o calor excessivo acelera a maturação e pode comprometer a qualidade da bebida. Já o excesso de chuva próximo à colheita aumenta o risco de fermentação, fungos e perdas na produção”, pontuou Meirelles.
O presidente destaca ainda que o aumento dos custos de energia já representa um desafio para produtores irrigantes e operações ligadas ao pós-colheita. Diante desse cenário, o setor vem ampliando investimentos em tecnologias voltadas à adaptação climática e à eficiência energética.
“O aumento do custo da energia impacta diretamente produtores irrigantes e operações ligadas ao pós-colheita. Em regiões com irrigação intensiva, a energia já está entre os principais custos operacionais da atividade, o que reduz margens e amplia a pressão sobre a competitividade do setor. Em um cenário de menor produtividade e custos mais elevados, os impactos acabam se espalhando por toda a cadeia do café, afetando desde o produtor até a competitividade da indústria cafeeira mineira”, destacou Meirelles.
Fernanda Borges
Imprensa FIEMG