Celebrado em 18 de agosto, o Dia do Estagiário amplia o debate sobre o papel dos jovens nas organizações. Mais do que uma etapa de formação e entrada no mercado de trabalho, a experiência pode promover a troca entre gerações e contribuir para a atualização das empresas. Ao levar novos repertórios, familiaridade com tecnologias e diferentes expectativas sobre carreira, integrantes da Geração Z também estimulam mudanças em processos, relações de trabalho e modelos de gestão.
O movimento ocorre em um cenário de grande potencial para a formação de novos talentos. Em 2024, o Brasil tinha aproximadamente 20,1 milhões de estudantes aptos a estagiar, mas apenas 1,2 milhão realizava estágio, o equivalente a cerca de 6% desse universo, segundo a Associação Brasileira de Estágios (Abres). O dado evidencia o espaço que ainda existe para ampliar o estágio como estratégia de desenvolvimento profissional.
Para Lorena Oliveira, analista de Projetos de Educação Executiva do IEL Minas, um dos principais desafios está em transformar o estágio em uma estratégia estruturada de formação, e não apenas em uma contratação temporária. Para isso, as empresas precisam criar espaços de acompanhamento e, principalmente, reconhecer que a relação de aprendizagem também acontece no sentido inverso.
“O primeiro passo é a empresa aceitar que também tem o que aprender com quem está chegando. O estagiário não é apenas alguém que precisa ser ensinado. Ele traz repertório novo em tecnologia, comportamento e formas de enxergar o trabalho, que pode ajudar a atualizar a própria organização. Quando existe espaço real para essa troca, o estágio deixa de ser apenas um degrau para o jovem e passa a ser uma via de desenvolvimento para os dois lados”, afirmou Oliveira.
Entre as características que marcam a entrada da Geração Z no mercado está a familiaridade com ferramentas digitais. A pesquisa Gen Z and Millennial Survey 2026, da Deloitte, aponta que 87% dos brasileiros da Geração Z entrevistados utilizam inteligência artificial no cotidiano profissional e 80% se sentem confiantes para aplicá-la. A presença desses jovens pode acelerar a adoção de novas tecnologias nas empresas, ao mesmo tempo em que amplia a necessidade de orientação sobre o uso responsável dessas ferramentas.
O cenário também exige que as organizações desenvolvam novas formas de gestão. A Geração Z tende a buscar maior transparência, feedbacks mais frequentes e espaço para diálogo sobre desenvolvimento profissional e bem-estar. Pesquisa do CIEE em parceria com o Instituto Locomotiva, realizada com mais de 8,8 mil jovens de 14 a 24 anos, mostra que 54% priorizam oportunidades de crescimento e 93% consideram muito importante trabalhar em empresas que valorizem a saúde mental.
Para a analista, esse comportamento contribui para uma transformação na relação entre lideranças e equipes, ao mesmo tempo em que coloca em discussão processos que antes eram pouco questionados.
“A mudança mais forte trazida por essa geração é o questionamento. Eles perguntam por que determinado processo existe e não aceitam simplesmente a resposta de que ‘sempre foi assim’. Isso pode incomodar algumas lideranças, mas também força as empresas a reverem processos que estavam engessados há anos. Ao mesmo tempo, essa geração trouxe uma nova relação com feedback e saúde mental. O jovem quer entender como está indo, onde pode melhorar e fala com mais naturalidade sobre limites, ansiedade e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Isso exige lideranças mais presentes, preparadas e abertas ao diálogo”, destacou Oliveira.
As mudanças também aparecem nas expectativas relacionadas à carreira. Segundo a pesquisa da Deloitte, 69% da Geração Z brasileira têm interesse em assumir uma posição de liderança, mas apenas 6% consideram esse o principal objetivo profissional. O resultado indica que a busca por crescimento está associada a outros fatores, como qualidade de vida, equilíbrio e sustentabilidade da rotina profissional.
No ambiente corporativo, a pressão por mudanças ocorre em paralelo à necessidade de qualificação. De acordo com o Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, estudo elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria (ONI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil precisará qualificar cerca de 14 milhões de profissionais entre 2025 e 2027. Desse total, 2,2 milhões correspondem à formação inicial e 11,8 milhões ao treinamento e desenvolvimento de trabalhadores que já estão no mercado.
Mais do que marcar o início da trajetória profissional, o estágio pode contribuir para aproximar conhecimento, inovação e experiência dentro das organizações. Ao investir nessa relação de troca, empresas e jovens constroem, juntos, profissionais mais preparados para os desafios de um mercado em constante transformação.
Fernanda Borges
Imprensa FIEMG