O avanço das importações de ferroligas e silício metálico tem acendido um alerta para a indústria brasileira e, de forma ainda mais intensa, para Minas Gerais. Responsável historicamente por mais da metade da produção nacional do setor, o Estado concentra parte expressiva dos empregos, dos investimentos e das cadeias produtivas ligadas a esses insumos estratégicos para a siderurgia, a metalurgia e outras atividades industriais.
A Associação Brasileira dos Produtores de Ferroligas e de Silício Metálico (ABRAFE), com apoio da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), alerta que a entrada crescente de produtos importados, sobretudo de países com menores exigências ambientais, trabalhistas e regulatórias, ameaça a competitividade da produção nacional, coloca empregos em risco e compromete o desenvolvimento econômico de municípios mineiros altamente dependentes dessa atividade.
Em 2025, Minas Gerais produziu 512,9 mil toneladas de ferroligas e silício metálico, o equivalente a 55,69% da produção brasileira, que somou 921 mil toneladas no período. O Estado é, portanto, o principal pólo nacional do setor. A indústria mineira tem capacidade estrutural para atender a demanda do mercado doméstico, sendo que o volume exportado corresponde ao excedente de produção.
Apesar dessa relevância, o setor já enfrenta retração significativa. Em Minas Gerais, a cadeia de ferroligas e silício metálico sustenta 39,6 mil postos de trabalho, sendo 8,8 mil diretos e 30,8 mil indiretos. Desde o pico recente de contratações, registrado em 2023, o Estado já perdeu 4.094 vagas, uma redução de 9,3%. Entre 2024 e 2025, o Brasil registrou queda de 3.060 postos de trabalho no setor. Desse total, 96,3% das demissões ocorreram em Minas Gerais.
“Quando a produção brasileira perde espaço para importações realizadas em condições que não refletem os mesmos padrões ambientais, trabalhistas e tributários exigidos no país, o impacto não é apenas sobre as empresas. O efeito se espalha por toda a cadeia produtiva, afetando empregos, investimentos e o desenvolvimento regional”, destaca a ABRAFE.
O reflexo da perda de mercado também aparece no funcionamento dos fornos industriais, que operam em regime contínuo e estão diretamente ligados à geração de empregos. Dos 58 fornos instalados em Minas Gerais, 2025 fechou com média de apenas 49,11 em operação. Isso significa que quase nove fornos permaneceram desligados por falta de demanda interna, levando a ociosidade do setor no estado a 15,3%.
A preocupação da ABRAFE se intensifica diante da evolução das importações. As compras externas de ferroligas e silício metálico passaram de uma média de 80 mil toneladas anuais, entre 2016 e 2020, para patamar superior a 110 mil toneladas anuais entre 2021 e 2025. No caso das ferroligas de manganês, a média saltou de 40 mil para mais de 70 mil toneladas. Já o silício metálico, que praticamente não era importado antes de 2021, alcançou 8 mil toneladas em 2025.
Esse movimento ocorre em um cenário internacional de sobrecapacidade produtiva na Ásia, especialmente na China e na Índia, combinado ao fechamento de mercados tradicionais, como Estados Unidos e Europa, que passaram a adotar sobretaxas, salvaguardas e medidas de defesa comercial. Como consequência, o Brasil se torna um destino mais vulnerável ao escoamento de produtos importados.
A produção nacional já sente os efeitos. Em apenas um ano, caiu de 1,022 milhão de toneladas, em 2024, para 921 mil toneladas em 2025, uma perda superior a 101 mil toneladas. Para a ABRAFE, esse recuo compromete a previsibilidade do setor, dificulta novos investimentos e enfraquece uma cadeia considerada estratégica para a economia brasileira.
Em Minas Gerais, o impacto é especialmente sensível porque a atividade está distribuída por municípios do interior, onde a indústria de ferroligas e silício metálico tem papel relevante na geração de empregos formais, na arrecadação e na dinamização de cadeias locais de fornecedores. Entre os principais polos mineiros estão Pirapora, Várzea da Palma, Capitão Enéas e Bocaiúva, no Norte de Minas; Araxá, no Alto Paranaíba; São João del-Rei, Barbacena e Santos Dumont, na região das Vertentes e Zona da Mata; além de Nova Era e Ouro Preto, na região Central.
Em cidades como Pirapora, Várzea da Palma e Araxá, o desligamento de fornos pode provocar efeitos em cadeia sobre o comércio local, o transporte pesado, os produtores de madeira de reflorestamento e diversos prestadores de serviços. Cada vaga direta eliminada no setor representa, em média, a perda de outros 3,5 empregos indiretos ao longo da cadeia produtiva.
Impacto ambiental
Além do impacto econômico e social, a ABRAFE chama atenção para a dimensão ambiental do problema. A produção brasileira de ferroligas e silício metálico é reconhecida pelo uso predominante de energia elétrica de origem renovável e de biorredutores sustentáveis, provenientes de florestas plantadas. Esse modelo confere ao produto nacional uma das menores pegadas de carbono do mundo para esses insumos.
Em contrapartida, parte relevante da produção importada tem origem em países cuja matriz energética depende fortemente de combustíveis fósseis, especialmente o carvão mineral. Para a entidade, substituir a produção brasileira por insumos fabricados com maior intensidade de carbono contradiz compromissos de descarbonização assumidos por diferentes cadeias industriais.
“Ao optar por produtos fabricados em regiões com emissões significativamente superiores às registradas no Brasil, corre-se o risco de transferir emissões para outros países sem produzir ganhos ambientais efetivos para o planeta”, alerta a entidade.
Defesa comercial
Diante desse cenário, a associação tem atuado em diferentes frentes para conter o avanço das importações em condições consideradas desleais. No âmbito nacional, a ABRAFE mantém diálogo junto à Secretaria de Comércio Exterior e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em defesa de instrumentos de comércio justo e medidas que preservem a competitividade da produção brasileira.
Entre as iniciativas em andamento está o pleito de investigação de práticas de dumping nas importações de ferroligas originárias da Índia, protocolado e em análise técnica pelo Departamento de Defesa Comercial. A entidade também atua no acompanhamento e na renovação de direitos vigentes em outros segmentos relacionados, como o magnésio em pó originário da China.
Outra frente de atuação envolve medidas tarifárias emergenciais. A ABRAFE solicitou a elevação temporária do Imposto de Importação por meio do mecanismo de Desequilíbrio Comercial Conjuntural. O pedido foi deferido para o silício metálico, que deixou de operar com alíquota zero e passou a contar temporariamente com taxa de importação de 10%. No caso das ferroligas, no entanto, a tarifa segue em patamar considerado baixo, de 5,4%, insuficiente para conter os efeitos da concorrência externa em condições assimétricas.
As empresas brasileiras também têm adotado medidas de sobrevivência operacional e comercial, incluindo esforços de redução de custos e preços para preservar participação no mercado interno. Segundo a ABRAFE, entretanto, as margens chegaram a níveis insustentáveis em alguns casos, levando ao desligamento de fornos e à redução da produção como forma de evitar perdas irreversíveis.
Para a entidade, a solução passa por uma avaliação mais ampla das decisões de compra da indústria consumidora, que considere não apenas o menor preço de curto prazo, mas também geração de empregos, sustentabilidade, rastreabilidade, segurança jurídica, responsabilidade social e fortalecimento da indústria nacional.
A ABRAFE, com o apoio da FIEMG, defende que o Brasil reconheça o caráter estratégico da cadeia de ferroligas e silício metálico e adote medidas capazes de preservar a produção nacional, especialmente em estados como Minas Gerais, onde o setor tem papel central na economia de diversos municípios.
Sobre a Abrafe
A Associação Brasileira dos Produtores de Ferroligas e de Silício Metálico (ABRAFE) representa as maiores empresas produtoras de ferroligas e silício metálico instaladas no Brasil, atuando em defesa da competitividade da indústria nacional, da sustentabilidade e do desenvolvimento das cadeias produtivas estratégicas para o país.