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Início » Tarifas dos EUA podem ampliar desvantagem de produtos mineiros, avalia FIEMG

Notícias

Tarifas dos EUA podem ampliar desvantagem de produtos mineiros, avalia FIEMG

Mais do que o percentual das cobranças, diferença em relação a concorrentes pode enfraquecer Minas Gerais como fornecedor de matérias-primas e bens industriais ao mercado americano

Por Fernanda Melo Dias Borges
  • 14/07/2026
  • | 9:34 AM

As novas tarifas que podem ser anunciadas pelo governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros ameaçam reduzir a competitividade da indústria mineira no mercado americano. Nos itens alcançados simultaneamente pelas duas medidas em análise, a cobrança adicional poderá chegar a 37,5%. Mais do que o percentual, porém, a principal preocupação está na diferença de tratamento em relação a fornecedores de outros países que disputam os mesmos compradores.

O Brasil pode ser enquadrado em duas novas taxações decorrentes de investigações conduzidas pelos Estados Unidos. Uma delas prevê uma tarifa adicional de 25% especificamente contra produtos brasileiros. A outra envolve 60 economias e está relacionada à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado, com alíquotas propostas de 10% ou 12,5%.

O país foi incluído no grupo sujeito à cobrança de 12,5%. Caso as duas medidas sejam confirmadas, acumuladas e aplicadas sobre uma mesma mercadoria, a sobretaxa adicional poderá alcançar 37,5%.

Nesse cenário, o produto mineiro ficaria 25 pontos percentuais acima dos concorrentes também sujeitos à cobrança de 12,5%. Em comparação com os países enquadrados na alíquota de 10%, a diferença chegaria a 27,5 pontos percentuais. Diante de fornecedores não incluídos nas investigações, a desvantagem poderia alcançar 37,5 pontos.

Essa diferença pode comprometer a posição de Minas Gerais como fornecedor de matérias-primas, insumos e produtos industriais para o mercado americano. Em segmentos nos quais há mercadorias semelhantes disponíveis em diferentes países, o preço final tende a ter peso significativo na escolha do importador.

Levantamento do Centro Internacional de Negócios da FIEMG (CIN/FIEMG) mostra que a exposição mineira está concentrada em produtos como ferro-gusa, pedras preciosas e semipreciosas trabalhadas, disjuntores, sebo bovino, materiais refratários, mel natural, próteses, instrumentos médicos, ardósia e outros bens industriais.

As novas cobranças, no entanto, não devem alcançar toda a pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos. Diversos produtos de interesse do mercado americano já integram as listas de exceções previstas nas propostas, seja por estarem sujeitos a outras medidas tarifárias, seja por serem considerados relevantes para o abastecimento e para as cadeias produtivas do país. O impacto efetivo dependerá da classificação de cada mercadoria e da redação final das medidas.

Ferro-gusa concentra maior exposição em Minas Gerais

Utilizado como matéria-prima pela siderurgia americana, o ferro-gusa exportado por Minas disputa o mercado americano com fornecedores da Ucrânia, Índia, Canadá, África do Sul e Indonésia. Esses países, no entanto, podem receber tratamentos tarifários diferentes.

Índia e África do Sul estão no grupo sujeito à alíquota proposta de 12,5% na investigação relacionada ao trabalho forçado. Canadá e Indonésia foram enquadrados na cobrança de 10%. Já a Ucrânia não integra a relação das 60 economias investigadas.

Considerando exclusivamente as duas novas medidas, o ferro-gusa ucraniano poderia chegar ao mercado americano com uma vantagem tarifária de até 37,5 pontos percentuais em relação ao produto mineiro.

“A combinação das medidas pode colocar produtos brasileiros em desvantagem significativa diante dos principais concorrentes internacionais, e essa diferença pode pesar diretamente na escolha do importador. A preocupação não está apenas no tamanho da tarifa, mas na diferença de tratamento entre fornecedores que disputam os mesmos compradores. O momento exige negociação, clareza nas regras e previsibilidade para preservar contratos e mercados estratégicos”, analisa Verônica Ribeiro Winter, coordenadora de Facilitação de Negócios Internacionais do Centro Internacional de Negócios da FIEMG.

Equipamentos elétricos, mel e pedras trabalhadas também estão expostos

O risco se estende a outras cadeias relevantes da indústria mineira. No segmento de disjuntores, o Estado disputa o mercado americano com fornecedores do México, da República Dominicana, da China e de países da União Europeia, especialmente Itália e França.

México e União Europeia estão entre as economias sujeitas à alíquota de 10% na investigação relacionada ao trabalho forçado. China e República Dominicana foram incluídas no grupo de 12,5%. Ou seja, caso o Brasil seja taxado em 37,5%, os produtos mineiros poderão chegar aos EUA com um custo tarifário significativamente superior.

No caso do mel natural e das pedras preciosas e semipreciosas trabalhadas, os principais concorrentes incluem Índia, Argentina, Nova Zelândia, Vietnã, Tailândia, Austrália, Sri Lanka, México e países europeus. Parte desses fornecedores poderá ser submetida apenas às alíquotas de 10% ou 12,5%, sem a cobrança adicional de 25% prevista especificamente contra o Brasil.

Uma diferença tarifária entre 25 e 37,5 pontos percentuais pode influenciar diretamente a decisão de compra das empresas americanas. Entre as possíveis consequências estão a substituição do fornecedor mineiro, a pressão pela redução dos preços e a renegociação de contratos, prazos e condições de pagamento.

O impacto deverá variar conforme a disponibilidade de fornecedores alternativos, o grau de diferenciação dos produtos e a relação comercial construída entre exportadores e importadores.

Setores nos quais Minas Gerais possui escala, qualidade reconhecida ou regularidade no fornecimento podem conseguir preservar parte dos contratos. Ainda assim, as empresas poderão enfrentar pressão sobre preços, margens de lucro e condições comerciais.

FIEMG defende intensificação das negociações

Diante da proximidade da decisão americana, a FIEMG defende a intensificação das negociações entre Brasil e Estados Unidos, a ampliação da lista de exceções e a publicação de regras claras sobre os produtos atingidos.

A entidade também considera fundamental esclarecer se as duas tarifas poderão ser acumuladas, quais serão os prazos de implementação e se haverá período de transição para contratos já assinados ou cargas em processo de embarque.

Para a FIEMG, a prioridade deve ser evitar que a cobrança específica contra o Brasil crie uma desvantagem prolongada para os produtos mineiros diante de países que oferecem mercadorias semelhantes e disputam os mesmos compradores no mercado americano.

Mesmo que as tarifas sejam confirmadas em 15 de julho, ainda será necessário observar a data efetiva de entrada em vigor, as regras aplicáveis a cada produto e a possibilidade de eventuais períodos de adaptação.

A decisão americana também poderá alterar as listas de exceções ou estabelecer condições diferentes das apresentadas inicialmente. Até a publicação do ato final, empresas e setores exportadores permanecem diante de um cenário de incerteza sobre contratos, embarques e custos de acesso ao mercado dos Estados Unidos.

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