
Um projeto desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) em Minas Gerais para ampliar a segurança no uso da energia elétrica entre indígenas Maxakali está entre os três finalistas do UNESCO-UNEVOC Global Awards for Innovation in TVET, premiação internacional voltada a iniciativas inovadoras de ensino e formação técnica e profissional. O resultado será anunciado em 2 de dezembro de 2026.
A indicação internacional reconhece uma iniciativa construída a partir de uma realidade complexa enfrentada pelo povo Maxakali. O projeto uniu conhecimento técnico, educação profissional e respeito às particularidades culturais da comunidade para enfrentar riscos relacionados às instalações elétricas nas aldeias.
Para Ricardo Aloysio, gerente de Tecnologia e Automação Industrial do SENAI, a indicação representa o reconhecimento de uma metodologia de educação profissional que ultrapassa a formação técnica convencional. “Para nós do SENAI MG, esse reconhecimento representa muito mais do que um prêmio. Ele confirma a força da educação profissional como instrumento de transformação e de geração de autonomia. O projeto com o povo Maxakali nos ensinou que levar conhecimento técnico para uma comunidade não significa simplesmente reproduzir uma formação que já existe. É preciso conhecer a realidade, respeitar a cultura, compreender as necessidades e construir, junto com as pessoas, uma solução que faça sentido para elas”, destaca.
A iniciativa foi desenvolvida em parceria entre SENAI, Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Ministério Público Federal (MPF) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O trabalho teve como objetivo capacitar os indígenas para o manejo seguro da energia e reestruturar instalações elétricas de baixa tensão nas aldeias.
O projeto surgiu após acidentes fatais registrados entre o fim de 2023 e o início de 2024: um relacionado a uma instalação elétrica precária que vitimou um indígena enquanto ele carregava o celular e outro provocado por uma descarga atmosférica. A partir desses casos, MPF e TJMG acionaram a Cemig, dando início à articulação que posteriormente envolveu o SENAI.
Segundo Matheus Miranda, à época juiz da comarca de Águas Formosas (que abarca os municípios de Bertópolis e Santa Helena de Minas, onde estão localizadas as comunidade atendidas), e um dos responsáveis pelo projeto junto aos Maxakali, os acidentes reforçaram a urgência de uma demanda que já vinha aparecendo nas conversas com as comunidades.

“Isso gerou uma comoção interna e externa muito grande, e eles passaram a pedir um projeto voltado para a energia. A partir daí, acionamos a Cemig e a FIEMG, que direcionou a demanda para o SENAI, e construímos o projeto também com o Ministério Público Federal e a Funai”, explicou.
Uma solução criada para a realidade Maxakali
Os Maxakali vivem principalmente nos municípios de Santa Helena de Minas, Bertópolis e Ladainha, no Vale do Mucuri. Entre os territórios estão Água Boa e Pradinho, onde foram realizadas as ações do projeto.
Uma das características consideradas no desenvolvimento da solução foi a mobilidade das famílias dentro do próprio território da reserva indígena, uma vez que o povo Maxakali é seminômade. Quando ocorre uma mudança, as instalações precisam acompanhar as novas moradias. Antes do projeto, as equipes encontraram situações em que extensões eram feitas com materiais inadequados e emendas improvisadas, como sacolas plásticas, fios de telefonia e arames farpados, aumentando significativamente o risco de acidentes.
Foi diante desse cenário que o SENAI desenvolveu uma solução técnica específica, composta por equipamentos que permitem distribuir a energia de forma mais segura entre as moradias, com o desenvolvimento de quadros elétricos instalados em postes e kits elétricos destinados ao interior das ocas de pau a pique a partir de materiais fornecidos pela Cemig.
Miranda explica que a solução precisou considerar uma característica cultural importante. Como os Maxakali mudam suas moradias dentro do território, era necessário desenvolver equipamentos que também pudessem ser transferidos. “Foi construído um material específico para eles, que permite que, com essa mudança, os equipamentos sejam levados e reaproveitados. É uma solução de fácil mobilidade pensada para essa realidade”, afirmou.
“O projeto foi criado especificamente para essa demanda. Fomos até o território, conhecemos a realidade e buscamos uma solução que pudesse melhorar a segurança, mas que também fizesse sentido para a forma como eles vivem”, completou Elmar Bueno, gerente da Unidade de Escolas Móveis do SENAI.
Além da solução técnica, o SENAI desenvolveu uma capacitação específica para os indígenas Maxakali, voltada ao uso seguro da energia elétrica e à realização de procedimentos básicos nas instalações, incluindo a transferência dos quadros elétricos em situações de mudança das moradias, dentro dos limites de segurança trabalhados na formação. O projeto teve duração de 2 anos e envolveu 28 aldeias indígenas.
“Um dos principais objetivos era não apenas substituir instalações inadequadas, mas deixar conhecimento dentro das próprias comunidades. E eles aprenderam. Já tivemos situações em que famílias mudaram de lugar e fizeram novamente a instalação. Quando voltamos, vimos que o trabalho havia sido feito com muito mais segurança. Isso mostra uma mudança de percepção sobre os riscos da eletricidade”, afirmou Bueno.
Formação une teoria e prática
Para que o conhecimento pudesse ser incorporado à rotina das comunidades, o SENAI desenvolveu uma metodologia específica, dividida em três etapas: acolhimento, letramento elétrico e prática no manejo seguro da energia elétrica.
No primeiro momento, as equipes trabalham a aproximação com a comunidade, com apoio da Funai e das lideranças locais. Depois, os participantes recebem conhecimentos básicos sobre eletricidade, segurança e uso responsável da energia. Por fim, o aprendizado é colocado em prática na própria reestruturação das instalações das aldeias.
A capacitação precisou considerar ainda uma questão fundamental: a língua. Muitos integrantes das comunidades atendidas falam predominantemente Maxakali, o que exigiu tradução e adaptação dos conceitos técnicos durante as atividades.
Para o juiz Matheus Miranda, essa construção conjunta foi fundamental para o desenvolvimento da iniciativa. “A riqueza do projeto está no respeito à cultura e à língua, aliado ao conhecimento técnico. A formação é bilíngue, tanto na oralidade, com tradução, quanto nos materiais escritos e audiovisuais. Hoje temos vários indígenas que passaram por essa capacitação”, ressaltou.
“Foi um desafio muito grande porque estamos falando de conteúdo técnico e de uma realidade linguística e cultural diferente. Não bastava chegar com uma aula pronta. Foi necessário desenvolver uma metodologia própria, fazer o acolhimento, trabalhar o letramento elétrico e depois executar as instalações junto com eles, para que aprendessem fazendo”, completou Elmar Bueno.
108 indígenas capacitados
Ao todo, 108 indígenas foram capacitados. O projeto começou com uma turma piloto em setembro de 2024 e avançou com novos atendimentos nas comunidades de Pradinho e Água Boa, totalizando 115 ocas em 28 aldeias

Além da formação, a Cemig forneceu todos os materiais para adequação das instalações. De acordo com Matheus Herzog, engenheiro de Eficiência Energética da Cemig, foram adquiridas 357 caixas destinadas às ocas e 126 caixas de passagem, além de ferramentas, fiação, soquetes, lâmpadas de LED e outros itens necessários às intervenções.
“A proposta foi juntar as duas coisas: capacitar os indígenas para que, no futuro, possam fazer pequenas extensões internas com mais segurança e, ao mesmo tempo, fornecer os materiais necessários para as adequações imediatas”, explicou Herzog.
O projeto também incluiu uma cartilha bilíngue, elaborada pela Cemig em português e Maxakali, voltada ao uso seguro da energia. As ilustrações foram produzidas com participação dos próprios indígenas, incluindo representações de situações de risco e de comportamentos seguros. O material também foi distribuído em escolas estaduais indígenas.
Resultados
Um episódio recente demonstra como o conhecimento adquirido já está sendo aplicado pelas próprias comunidades. Após uma pane elétrica em uma aldeia, lideranças capacitadas pelo SENAI utilizaram os conhecimentos e materiais disponíveis para solucionar o problema no próprio território e restabelecer o fornecimento de energia.
“Eles acionaram as lideranças que tinham feito o curso do SENAI e o problema foi resolvido por eles mesmos. Conseguiram utilizar o material que havia ficado e restabelecer a energia com os conhecimentos adquiridos no curso. Isso me deixou muito emocionado e mostrou que estamos no caminho certo”, relatou o juiz.
Para Miranda, situações como essa ajudam a dimensionar o impacto da iniciativa. “A avaliação dos resultados é a melhor possível. Os números mostram o alcance nas aldeias e comunidades, mas casos como esse mostram qualitativamente o resultado. Hoje é um projeto celebrado e reconhecido pelos Maxakali, o que, a nosso ver, é o mais importante”, disse.
Na avaliação de Ricardo Aloysio, o principal legado da iniciativa é a autonomia proporcionada às comunidades por meio do conhecimento. “O resultado mais importante não está apenas nos números, mas na capacidade que ficou instalada nas comunidades. Quando um indígena capacitado pelo SENAI consegue utilizar aquele conhecimento para resolver uma situação real com mais segurança, percebemos que a educação realmente cumpriu seu papel. Por isso, estar entre os finalistas de um prêmio internacional da UNESCO é motivo de muito orgulho. Mas, acima de tudo, é uma confirmação de que uma educação profissional inclusiva, contextualizada e conectada às necessidades da sociedade pode transformar vidas”, conclui.
Thaís Mota
Imprensa FIEMG