A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) realizou, nesta sexta-feira (30/10), a entrega do Prêmio FIEMG de Economia, iniciativa que reconhece trabalhos acadêmicos voltados à análise dos desafios e das oportunidades para o desenvolvimento da indústria brasileira. A programação aconteceu durante o Imersão Indústria e também contou com palestra do economista Fabio Giambiagi, que abordou o cenário fiscal do Brasil, a evolução das despesas públicas e os desafios para o crescimento econômico sustentável.
Os três trabalhos premiados discutem questões estratégicas para o futuro da indústria nacional, como infraestrutura, complexidade econômica, diversificação produtiva, capacidades industriais e investimentos. As pesquisas contribuem para ampliar o debate sobre os fatores que influenciam a competitividade e o desenvolvimento econômico do país.
O economista-chefe da FIEMG, João Gabriel Pio, destacou o crescimento do prêmio da primeira para a segunda edição, e a qualidade dos artigos apresentados. Além disso, ele pontuou sobre a importância de artigos acadêmicos sobre a indústria. ““A indústria de transformação brasileira enfrenta um processo intenso de desindustrialização, com produção 17,8% abaixo do pico registrado em 2011, perda de produtividade e aumento dos custos do trabalho. Precisamos compreender quais políticas deram certo e quais não funcionaram para reverter esse cenário. O Prêmio FIEMG de Economia busca justamente estimular pesquisas que contribuam para esse debate e apontem caminhos para recuperar a competitividade da indústria brasileira”, destacou.
O primeiro lugar foi conquistado pelo artigo “Impactos da infraestrutura sobre a diversificação industrial: complexidade econômica e transição verde no Brasil”, de Vicente Alves Toledo, com coautoria de Victor Medeiros. O estudo investiga a relação entre infraestrutura, diversificação da atividade industrial e complexidade econômica, considerando também os desafios e as oportunidades associados à transição para uma economia mais sustentável.
Na segunda colocação ficou o trabalho “Complexidade econômica e escala produtiva: capacidades locais como obstáculo e alavanca do crescimento industrial brasileiro”, de Elton Eduardo Freitas, com coautoria de Yasmin Nery Santos e Gustavo de Britto Rocha.
O terceiro lugar foi conquistado por Tomás Amaral Torezani, autor do artigo “O alcance industrial do investimento produtivo no Brasil: intensidade manufatureira e encadeamentos domésticos”.
Ao reconhecer pesquisas com diferentes abordagens sobre o desenvolvimento industrial, o Prêmio FIEMG de Economia reforça a importância da produção científica e do conhecimento econômico para subsidiar discussões sobre competitividade, produtividade e políticas voltadas ao fortalecimento da indústria.
O Imersão Indústria é uma realização do Sistema FIEMG, com correalização pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O evento tem patrocínio Máster da Vale e apoio Máster do Sebrae; patrocínio ouro da Usiminas, Kinross, Samarco, Grupo Avante e Sicoob Credifiemg; e patrocínio prata da Anglogold Ashanti, Herculano Mineração, Bemisa, Arcelor Mittal e P7 Criativo. O Imersão é realizado em parceria com a Construtora Barbosa Mello e apoio da 98 News, Casa e Decoração, FireFly, GoldenAir e B55.
Fabio Giambiagi analisa desafios fiscais e crescimento econômico
A programação do Prêmio contou ainda com palestra do economista Fabio Giambiagi, que apresentou uma série de mitos sobre ajuste fiscal e falou sobre as perspectivas para 2027.
Durante a apresentação, Giambiagi destacou a evolução dos gastos públicos e desmistificou algumas percepções recorrentes sobre a política fiscal brasileira. A primeira delas é a de que o ajuste fiscal não produz resultados efetivos. Para contrapor essa visão, o economista resgatou as medidas adotadas entre 1998 e 2002, período em que, segundo ele, o ajuste contribuiu para uma melhora de 3% do PIB.
O palestrante também contestou a ideia de que o governo federal apenas corta gastos. Como exemplo, destacou a expansão do gasto primário federal, que passou de 11% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1991, para 20%, em 2020. Segundo Giambiagi, as despesas públicas registraram crescimento médio de 5% ao ano ao longo dos últimos 25 anos.
Outra percepção questionada foi a de que déficits fiscais elevados seriam uma realidade inevitável. O economista comparou a situação brasileira à de outros países em desenvolvimento. “Há diversos países em desenvolvimento com déficits em torno de 3%, enquanto o Brasil registrou um déficit de 10% do PIB nos últimos 12 meses”, pontuou.
Giambiagi também chamou a atenção para a composição das despesas públicas, contestando a ideia de que os gastos do governo se concentram principalmente no pagamento de pessoal. Conforme demonstrou, essas despesas apresentaram redução nos últimos anos, sendo uma parcela significativa destinada atualmente a aposentados e pensionistas.
Por outro lado, destacou o crescimento expressivo de outras despesas obrigatórias, especialmente aquelas vinculadas aos pisos constitucionais de saúde e educação. O economista também mencionou a ampliação dos gastos com programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, durante os governos de Lula e Jair Bolsonaro.
Propostas para o equilíbrio fiscal
Diante desse cenário, Giambiagi apresentou medidas que, em sua avaliação, poderiam contribuir para o controle das despesas públicas e a sustentabilidade das contas do governo. Entre as propostas está o fim das exceções ao teto de gastos, com a adoção de uma regra que limite o crescimento real das despesas equivalente à correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acrescida desse 1,5%.
Outra medida defendida pelo economista é a criação de um Piso Salarial Nacional (PSN), com valor superior ao salário mínimo e reajuste anual pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acrescido de 0,5%. Pela proposta, o salário mínimo passaria a ser utilizado exclusivamente como parâmetro para o pagamento de benefícios previdenciários.
Em relação às despesas obrigatórias com saúde e educação, Giambiagi sugeriu alterações nas regras de correção dos valores. Para a educação, a proposta prevê que o crescimento dos gastos seja limitado à variação do IPCA. Já para a saúde, o economista defendeu a adoção da mesma regra aplicada ao piso de gastos, vinculando sua evolução aos limites gerais de crescimento das despesas públicas.
As propostas, segundo a análise apresentada, buscam reduzir a rigidez orçamentária e criar condições para maior previsibilidade fiscal, diante do crescimento das despesas obrigatórias e dos desafios para o equilíbrio das contas públicas.
Thaís Mota
Imprensa FIEMG